28 de Out de 2009

Vasco Graça Moura

Ainda sobre "Caim", excelente e esclarecedor post de Vasco Graça Moura no DN de hoje. Aconselho a leitura aqui.

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25 de Out de 2009

Saramago, Caim e os pecados de Deus

Ainda não li o novo romance de Saramago e confesso que não planeio lê-lo. Mas por nenhuma razão em especial, nada tenho contra o tema e jamais iria intrometer-me na liberdade criativa de um autor. Não o lerei apenas porque o tema não me interessa no momento e já conheço o que queria sobre a história de Abel e Caim.

É precisamente por conhecer o referido episódio, bem como muitos outros contidos nos primeiros livros do Antigo Testamento da Bíblia, que eu não compreendo onde está toda a polémica com o romance. E, baseando-me não no romance, mas nas declarações públicas do autor, só realmente quem não tiver lido, por exemplo, o Génesis, é que poderá não perceber o que Saramago quer dizer quando defende que o Deus representado no Antigo Testamento não é de fiar, é cruel e malicioso. Concordo perfeitamente. Aliás, por diversas vezes já discuti isso com amigos e já foquei o assunto em algumas crónicas no passado, como por exemplo num pequeno texto sobre o sacríficio de Isaac, neste mesmo blogue.

Com ou sem polémica em redor, provavelmente criada propositadamente para efeitos de marketing, pois a verdade é que as vendas desse livro e da Bíblia dispararam (assim como irá acontecer com muitos outros que irão surgir nos próximos dias sobre o tema), “Caim” é apenas um romance. E sendo escrito por Saramago, é provavelmente um grande romance. Mas, se o interesse do leitor agora, depois desta polémica toda, for perceber melhor a história destes dois filhos de Adão e conhecer a figura do Deus retratado no Antigo Testamento, não leia Saramago. Vá antes ler a Bíblia. E aí, sem a polémica à volta da falta de fé e sem as declarações algo excessivas de Saramago, certamente que até chegará às mesmas conclusões que ele chegou.

O problema é que a religião é vista como uma vaca sagrada, onde não se pode tocar nem da qual se pode falar. E, se alguém tem uma opinião diferente da instituída, independentemente de ser verdadeira ou não, é um blasfemo. Interessará às instituições religiosas, certamente, que os fiéis não questionem nem investiguem por si próprios as fundações das mesmas. Pois aí, certamente, muita coisa ruiria. As Igrejas terão muita coisa para explicar quando os fiéis começarem a perceber como apenas algumas coisas no Livro Sagrado são seguidas, como muitas são ignoradas, como muitas são aberrantes, e como são interessantes algumas interpretações das suas palavras.

Na verdade, até ao início do Novo Testamento, onde aparece o redentor Jesus Cristo, que vem mudar todo o sentido da Bíblia, humanizando o Criador, trazendo a imagem de fraternidade, justiça, caridade, compaixão e misericórdia, que todos conhecemos, Deus é realmente mostrado como um ser caprichoso, cruel e ardiloso. Claro que os tempos eram outros e é necessário contextualizar a própria escrita dos vários livros bíblicos. Isso é evidente.

Mas ainda assim, o que dizer de um Deus que ordena a Abraão que sacrifice e mate o seu próprio filho (como está escrito no Génesis 22:1-18)? Que recompensa o mesmo Abraão por prostituir a sua mulher Sarah ao Faraó em troca de riquezas e terras (Gn 12:10-20)? Que considera justo e salva de Sodoma o cínico Loth, que, só para não ser chamado de mau hospitaleiro, oferece a virgindade das suas duas filhas para que um grupo de homens faça delas o que quiser (Gn 19:4-8)? O mesmo Loth que, em momentos de aberrante incesto, embriagado, permitirá que as filhas se deitem com ele e as engravidará (Gn 19:30-36)? Ou do seu familiar Jaco, que dará origem a uma inteira geração de servos de Deus, que só aceita alimentar o seu irmão, morto de fome, se este lhe conceder os direitos de filho mais velho (Gn 25:29-34)?

Ou o que dizer de um Deus que propositadamente provoca o desentendimento entre os homens, só para que não consigam construir a Torre de Babel, com medo do que o Homem pode realizar se se unir? E diz isto, textualmente: "Eis que os homens são um só povo e falam uma só língua: se começam assim, nada futuramente os impedirá de executarem todos os seus empreendimentos. Vamos: desçamos para lhes confundir a linguagem, de forma a que já não se compreendam um ao outro." (Gn 11:6-7)

Isto e muito mais está no Génesis, que é o primeiro livro do Antigo Testamento. Já para não falar das duríssimas leis de Moisés que aparecerão noutros livros, do desprezo pelas mulheres, das injustiças, das guerras, do incentivo à vingança com o famoso “olho por olho, dente por dente”. Ou da pavorosa história de Job, descrito pelo próprio Senhor como o mais “justo e bom homem à face da terra”, que vê a sua vida destruída pelo Criador, perdendo mulher, filhos, colheitas, animais e saúde, só para satisfação de uma aposta entre Deus e o Diabo.

Por tudo isto, repito que só uma muito baixa tolerância à diferença de opinião, a ignorância sobre o assunto e o fanatismo religioso podem levar a que se censure um romance como este de Saramago. É verdade que ele tem uma postura arrogante e algo intratável no que toca à religião, e que se excedeu em algumas afirmações e expressões. Mas a livre expressão é um direito alcançado por um País que, está visto, não o sabe honrar. Só um ignorante pode querer calar a voz de um escritor, seja ele quem for, por questões de cegueira religiosa ou política. E muito menos quando esse escritor é dos poucos motivos de orgulho que este País cada vez mais cego, fútil e decadente teve nas últimas décadas.

Quanto ao eurodeputado do PSD que sugeriu a Saramago que renunciasse a ser português, só espero que fique lá por Bruxelas por muito tempo. E, de preferência, não como eurodeputado porque me envergonha profundamente que represente Portugal de qualquer forma que seja.

É que todas estas reacções são o regressar ao mau antigamente. À tentativa de censura da liberdade contra a qual tantas pessoas lutaram durante anos. Deviamos antes ser mais evoluídos e tentar seguir o exemplo de Voltaire quando disse: “Não concordo com uma palavra do que dizes, mas defenderei até à morte o teu direito de dizê-lo”.

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22 de Out de 2009

Uma poça de água

Com a chuva, aparecem no chão as primeiras poças de água do ano. Ontem, ao deparar-me com uma particularmente grande, pensei, aborrecido, que não tinha outra forma de passar a rua senão molhando os pés. Fi-lo contrariado, maldizendo a minha sorte.

E foi então que percebi como a idade nos transforma, nem sempre da melhor maneira.

Há vinte e poucos anos atrás, se me deparasse com uma poça daquele tamanho, não ficaria aborrecido nem incomodado. Em vez disso, olharia para ela, veria nas suas águas paradas o reflexo das casas, das árvores e do céu escuro, e ela deixaria de ser apenas uma poça para se transformar num violento oceano ou num lago tenebroso cheio de mistérios por desvendar. E eu já não seria apenas um menino a tentar passar para o outro lado da rua; seria antes um valente aventureiro que se prepara para enfrentar todo aquele mar. E, quando finalmente passasse para o outro lado, não estaria incomodado com as meias e os sapatos molhados.

Sentiria sim um orgulho enorme, uma sensação de dever cumprido. Provavelmente parecido com o que sentiu Gil Eanes ao dobrar o Bojador. Ou Cabral quando descobriu o Brasil.

Mas, agora, com tanto aborrecimento por algo tão simples e pensamentos tão adultos e responsáveis, já não sou nenhum intrépido navegador.

Agora sou apenas um velho do Restelo.

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21 de Set de 2009

O único amor (post muito longo)

Parece-me que é importante, cada vez mais, que cada um de nós entenda dentro de si que existe apenas um amor na vida, que é o amor próprio. Nenhum outro amor pode existir sem este, nenhum outro amor é mais senão a extensão do mesmo. Porque só aquele que, amando-se como é e o que é, poderá ter dentro de si a generosidade de dar daquilo que ama a quem quiser, seja a um parceiro ou à humanidade. Porque aquele que, na verdade, não tem amor próprio, quando dá, dá aquilo que é de si, um imenso vazio, uma necessidade, uma busca, uma tristeza, uma incompletude, nunca uma luz.
Porque amar é sem dúvida mais um acto de dar do que de receber. É um acto de dádiva e não de recompensa. Por isso, há primeiro que procurar a paz interior, o orgulho no acto de ser, de respirar, antes de procurar o outro ou os outros que possam completar a nossa existência.


Poderá parecer, numa primeira vista, um discurso egoísta e individualista. Mas a verdade é o oposto. Em vez de falhar em tentativas frequentes de procurar nos outros a solução para as nossas falhas e para as nossas ausências, o indivíduo que assim proceder estará, talvez numa primeira fase, a abster-se sim de partilhar, mas, quando finalmente o fizer, será com mais substância e grandiosidade. E sem medos, angústias ou falhas.

Deveria então toda a educação deste mundo - todos os sistemas educativos - ser focada na ideia de incentivar e moralizar as crianças. Incentivá-los a aprender que podem ser criadores e amar tudo o que sai de qualquer gesto seu, mesmo que incompleto ou inconsequente. Incentivá-los a interpretar pelas suas palavras e lógicas os textos, a deixar voar livre o pensamento e imaginação, a procurar a diferença em vez de a temer.

É verdade que existem valores fundamentais. Valores que não podem nem devem ser mudados. Do bem e do mal. O respeito pela vida humana, pelo esforço alheio, o não preconceito. Entre outros. E é, claro, verdade que esses valores devem ser ensinados. Mas, com certeza que, se a educação for feita no sentido da autovalorização e da alegria, eles serão naturalmente integrados sem esforço, como extensões naturais desse acto de criação livre que não tem lugar para invejas ou medos.

E então dever-se-á lutar por uma meta na sociedade: a igualdade de oportunidades. Apenas isso. Que cada ser humano, que cada cidadão use de todas as suas forças para que cada um dos indivíduos que apareçam neste mundo tenha as mesmas oportunidades do que os outros, independentemente da sua origem, da sua cor ou da sua religião. Mas apenas a igualdade de oportunidades deverá ser igual. A partir daí, cada um deverá escolher o seu caminho, sem morais de espécie alguma, pois cabe a ele e ao seu livre arbítrio, ao seu amor próprio, no fundo a grande ordem que o Criador – seja ele quem for, Deus ou a genética humana – preparou e ofereceu a cada um de nós. Pois é verdade que, como já foi dito, se a lógica da vida fosse sermos todos iguais, não teria o Criador feito tantos diferentes e absolutamente únicos indivíduos, mas teria antes juntado todos num só corpo.

Então, a seguir às oportunidades e à liberdade chega sim a hora de escolher. Cada um por si. Cada um com o seu ego, os seus anseios, as suas expectativas. Porque cada um realizar-se-á à sua maneira e apenas o próprio indivíduo saberá qual o caminho que quer percorrer. Poderá fazer escolhas erradas, sem dúvida. Auto-destrutivas, até. Mas será uma escolha sua. Do seu amor próprio, o tal que é o único que verdadeiramente existe, e a cada um dos outros cabe apenas a tarefa de respeitar e, quanto muito, conversar sobre o assunto pois das ideias partilhadas também podem nascer novos caminhos.

E esse combate, o das escolhas, aquele que leva cada um a ser único e absolutamente inimitável, esse combate do individuo contra o seu ego, deve ser um combate absolutamente solitário. Porque é tarefa de cada um dos Homens travar o seu e apenas o seu, e não deixar que esse mesmo combate cresça para além desse universo interior e afecte negativamente os outros indivíduos e a sua liberdade, nem que imponha regras ou faça exigências.

Mas é isso que acontece tantas vezes, principalmente nas relações humanas, nas relações de amor entre os indivíduos, o que me leva ao início desta conversa. É o que acontece na esmagadora maioria das relações, o confronto entre um ego e o outro, as necessidades de um ego ferido reflectidas, projectadas no outro indivíduo, como um soldados que, ferido, toca a trombeta a pedir ajuda.

E não cabe de facto ao outro ajudar nesse combate. Pois o outro tem, ele próprio, um combate semelhante à sua espera: o de se realizar. O de, no meio dessa confusão de sentimentos e hipóteses – pois é essa a maldição do Homem, o de ter infinitas hipóteses e caminhos e apenas poder seguir um de cada vez -, encontrar o absoluto equilíbrio, ou pelo menos alguma estabilidade, para poder projectar para fora de si, não o medo, a angústia, a carência e a necessidade, mas sim a luz criadora, a força e o verdadeiro amor.

Será difícil saber quando então é que uma partilha é verdadeira, sabemos que os sentimentos são confusos e difíceis de discernir. Mas talvez haja um pequeno método, simples e eficaz. Unamos por um pouco o dom de sentir ao dom de pensar, pois são ambos de igual importância, ambos provêm da mesma fonte e nenhum deles é inferior ao outro.

Unamos então à luz do sentimento a luz da razão: sempre que um acto ou decisão, tomada por nós em relação a outro, ou por outro em relação a nós, ferir no mais fundo do nosso eu, for contrário à nossa crença, à nossa vontade, à nossa dignidade enquanto ser humano, ao nosso livre arbítrio, quando racionalmente o entendermos como tal, façamos ainda uma pequena pergunta. Será este acto praticado em prol de um bem maior para a comunidade ou humanidade ou para a salvação de outro ser humano? Ou, pelo contrário, será praticado apenas tendo em vista a satisfação, ainda que momentânea, do ego de um individuo incapaz de travar a sua própria batalha?
Se a resposta for a primeira, estará no critério de cada um a generosidade ou não de aceitar esse sacrifício. Mas, se for a segunda, então, mesmo que vá contra tudo o que nos diz o sentimento, a recusa será o único caminho sensato.

Mas o amor obriga a coisas impossíveis, a sofrimentos atrozes, dirão alguns. Não é esse o amor em que eu acredito. Esse é o amor dos egos desfeitos e fatalistas. E, se esse sentimento confuso, ainda apesar da razão apontar outra direcção, insistir em aceitar a humilhação, é preciso lembrar que, em todas as grandes vitórias da humanidade foi preciso esforço. Foi preciso determinação e resistência. Nenhum atleta consegue facilmente correr uma maratona se não começar a correr pelo menos dez minutos antes disso. Então é o treino, o hábito, ainda que contra todas as forças que fará, um dia, o indivíduo, facilmente, encontrar uma situação humilhante, em que o ego de outro ser egoísta, se queira impor sobre si, e lhe diga categoricamente não, respeitando a vontade de quem nos deu essa chama única, criadora e individual.

Soltar as amarras do medo e da carência. Deixar de procurar nos outros o que não temos, mas encontrá-lo dentro de nós. Porque amar verdadeiramente alguém nunca é sinónimo de necessidade, mas sim de vontade. Vontade pura de estar, de dar, de partilhar, sem que nisso haja outro interesse que não a simples alegria, livre de carência, medos ou necessidades, mas cheia de partilha e livre arbítrio. Pois quem pensa amar algo de que necessita e que lhe ocupa, ainda que apenas por uns momentos, o seu vazio, comete a maior das imprudências. Quem ama à espera de ter algo, está equivocado, pois será o algo que realmente o tem, será o algo que é realmente o dono e senhor a quem o infeliz se curva a toda a hora, numa dependência sem fim e, no final de tudo, desoladora e fria.

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9 de Jun de 2009

Exposição de Vítor Neno no Cartaxo

O meu amigo Vítor Neno vai inaugurar, hoje, dia 9 de Junho, pelas 22:30 horas, no Centro Cultural do Cartaxo, uma exposição de fotografias da sua autoria, registadas durante os últimos quatro anos de espectáculos realizados no mesmo espaço.

O trabalho de fotógrafo é um trabalho difícil, de grande perícia e imaginação. Mas, quando se trata de fotografar eventos, como um espectáculo ou um evento desportivo (onde o Neno é especialista, pois tem vários anos de experiência a trabalhar para jornais de prestígio, entre os quais o Record), tudo se torna ainda mais difícil pela velocidade e imprevisibilidade.

Nesses momentos, o fotógrafo não está num ambiente controlado, onde a luz foca o que deseja ou o enquadramento é amplamente estudado. Aqui, além da técnica e da imaginação, é necessário também ter timing, atenção e precisão. Os momentos certos não esperam. Ou o fotógrafo, como uma águia, repara e dispara a tempo, ou os momentos, mesmo que mágicos, nunca mais ficam registados em nenhum outro lugar que não a memória dos que a eles assistiram.

E o Neno é excelente nesse campo, sempre atento, sempre presente, fazendo a máquina disparar no momento exacto, captando as emoções e a força dos eventos.

De realçar ainda que, antes da inauguração da exposição, vai haver lugar, no Centro Cultural do Cartaxo, um concerto com os MadredeDeus e a Banda Cósmica, a ter início pelas 21:30.

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27 de Mai de 2009

A verdadeira crise que vivemos

"The crisis is a crisis in consciousness, a crisis that cannot anymore accept the old norms, the old patterns, the ancient traditions.

And, considering what the world is now with all their misery conflict, destructive brutality, aggression, and so on, man is still as he was: is still brutal, violent, aggressive, acquisitive, competitive, and he has built a society along these lines.

What we are trying to, in all these discussions and talks here, is to see if we cannot radically bring about a transformation of the mind. Not accept things as they are, but to understand it, to go into it, to examine it, give your heart and your mind and everything that you have to find out a way of living differently.

But that depends on you and not somebody else. Because in this there is no teacher, no pupil, there is no leader, there is no guru there is no master, no saviour. You yourself are the teacher and the pupil, you are the master, you are the guru, you are the leader.

You are EVERYTHING.

And to understand, is to transform what is."

Jiddu Krishnamurti

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18 de Mai de 2009

Balanço da "tour" algarvia

Excelente, excelente, a passagem pelo Algarve.

A sessão com o Clube de Leitura da Biblioteca de Loulé foi fantástica. Adorei a participação dos membros e a discussão em volta do meu último romance "Ao teu lado", principalmente acerca dos dilemas morais do personagem José Carlos Sagácio. Aliás, confesso que fico sempre emocionado quando vejo a forma como os personagens e os enredos que crio aqui neste computador, muitas vezes a altas horas da noite, acabam por tocar outras pessoas. É para isso que se escreve. É a sensação do dever cumprido.

Para quem leu o livro, refiro que, quanto à discussão propriamente dita, acho curioso o impacto que a "minha Desidéria" tem nos leitores. No livro, apesar de estar sempre presente, é ainda assim uma personagem com uma névoa em redor, com algum mistério e muita subtileza. E, apesar de ser o mote de todo o enredo, é aquela de quem menos se fala em todas as discussões sobre o romance. Quase como se, como o é no romance, fosse na realidade também apenas uma musa intocável. Pelo contrário, Sagácio é um personagem presente, saudavelmente odiado pela maior parte dos leitores, antes de despir a sua capa de anti-herói e entrar no caminho que transforma o final do livro numa autêntica surpresa.

Depois, na Livraria Pátio das Letras, em Faro, houve lugar a outra sessão, também muito interessante. Desta vez não tinha havido uma leitura prévia do livro, o que levou a conversa a voar para outros assuntos que não apenas o romance, mas foi mais uma tarde muito interessante, rodeado de pessoas interventivas que me fazem acreditar que talvez o País ainda tenha uma solução. Enquanto houver gente que pense, que se preocupe, que olhe para além do seu próprio umbigo, tudo poderá mudar.

Um agradecimento à Dra. Rita, da Biblioteca de Loulé, que foi incansável e de uma simpatia incrível, e à Dra. Liliana, da Pátio das Letras, que também me recebeu muito bem e tem a coragem de levar adiante um projecto arrojado e dinâmico que vale a pena conhecer melhor.

E, claro, à Adriana Nogueira, à Professora Doutora Adriana Nogueira, mas que, pela amizade que nos une, prefiro tratar apenas por Adriana, que me recebeu tão bem no Algarve, falou de forma tão amável do meu trabalho e que é um exemplo de vitalidade, voluntariado e cooperação.

Tudo coisas que fazem tanta falta a este mundo.

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